12/29/2009

O frio das emoções




Doces e amargos caminhos


Trilhas congeladas


Rotas obstruídas


Um manto branco cobrindo a alma




O silêncio é penetrante


Implacável


Sem tréguas


Sufocante




O olhar se perde na bruma


E não se reencontra


Como que fenece


Em um cenário invernal




Resta esperar ao menos um raio de sol


Uma nesga que seja


Capaz ao menos de apaziguar


O frio que perpassa


As emoções


10/09/2009

Certezas


Relva
Dor
Grama
Busca
Incompreensão
Vivência
Audiência
Falência.

Voraz, o tiro rasga e arrebenta
Impertinente, o zumbido agita
O reflexo se impõe
A experiência é algo renegado
Safadeza satisfaz
Pureza corrompe.

Bucólico e irreal
O passado é um tempo perdido
O futuro já passou
Altivez é imposição
Posição e tentação
Cultural e/ou ideológica.

Viver poderia ser apenas viver
Mas seria contra a ordem natural
Dos animais humanos.

Por isso, é preciso organizar
Para tudo continuar como nunca.

E o sonho,
De mãos sem armas
Políticas destroçadas
Poder humilhado
Vitória derrotada
Glória refutada
Ambição reduzida a cinzas,
Não passar de um mera quimera.

Assim deve ser
Para legitimar os fatos
Absolutos e reais.

Como a imprevisão do amanhã
A convicção do fim
A força imperando
A sensatez pisoteada.

Ao ponto dessas gentes serem arrastadas
No turbilhão de uma história repleta de certezas
Nunca bem explicadas.

10/06/2009

A noite do esperto




Nessas noites mal dormidas
De pesadelos turbulentos
Sirenes esganiçadas
Tiros sibilitantes
Latarias entrelaçadas
Choques frontais
Torturas escamoteadas
Socos pesados
Cassetetes sanguinolentos
Turmas tiranas
Abusos fardados
Maridos alcoolizados
Executivos penetrados
Meninas e meninos rasgados
Sons mecânicos
Drogas injetadas
Adrenalina acelerada
Corpos em pedaços
Facas impetuosas
Dignidades esfaceladas
Risos deprimidos
Solidões afogadas

Ainda brilham estrelas
A lua passeia descompromissada
As flores silvestres guardam seu perfume
Para o amanhecer
Povoado de pássaros
De árvores
De cores
De vento tranqüilo
De lagos sonolentos
De montanhas preguiçosas

Que compõem a harmonia
Natural
Cujo único lamento
É a perda do filho dileto
Preocupado
Em ser o mais esperto.

10/01/2009

Com um sorriso nos lábios


Com um sorriso nos lábios


Vou fazer o que der na telha
Liberar aquela centelha
Que me faz sentir diferente
Alguém especial em meio a toda essa gente.

Quero sentir por inteiro o meu egoísmo
Fazer vibrar por todos os poros o meu narcisismo
Deliciar-me com minha maldade
E nunca mais ter qualquer gesto de humildade.

Vou quebrar as amarras das culpas
Anular qualquer chance de pedir desculpas
Incendiar os complexos e a timidez
Não ter vergonha de agir com hipocrisia e desfaçatez.

Desejo tratar o mundo com o devido desdém
Ter orgulho de estar um pouco além
Não alimentar tristezas pela miséria humana
Tirar proveito da fraternidade profana.

Nada de reprimir impulsos e ambições
Nada de condicionamentos e tensões
Nada além do meu interesse e do meu prazer
Nada além da minha glória e do meu bem viver

Nunca suportei os medíocres
Nunca tolerei os falsos
Nunca concordei com os mentirosos
Nunca me conformei com os poderosos

Pois agora, aviso-os, preparem-se!
Estendam um tapete vermelho
Limpem o pó do trono
Estou chegando para assumir
O meu lugar de sempre
Com ódio
Rancor
E um sorriso nos lábios.

9/02/2009

Desci alhures


Desci alhures
Desdenhando o além
Apressando o olhar
Desviando-me dos marasmos
Escondendo o tremor dos pensamentos.

Cheguei bem fundo do profundo
Onde as luzes não traduzem as imagens
E a escuridão tateia sensações.

Meu corpo fragmentou-se ao chocar-se com a névoa gelada
Que recobria as rochas que rondavam o espaço vazio
Como em busca de cheiros de vida

Tornei-me fagulhas no vácuo
Milhares de pedaços esvoaçantes
Destinados ao sem rumo das intenções

Um som de sino fez a atmosfera sensível
Vinha de longe
De mais adiante de alhures
Talvez de algum lugar

O que restava de mim passou a lampejar
Os pedaços tornaram-se vibrantes
Um odor de lírio foi unindo meus sonhos

Consegui arder como labareda
Limpei com vigor o mofo dos poros
Alcei-me ao infinito feito nuvem cósmica

Carregando em uma das mãos uma tocha de flores
Fui abrindo caminho pelo espaço
Alimentando o desejo de encontrar o lugar
Ouvir mais de perto a música do sino

E talvez mergulhar
De uma vez por todas
No som de minha alma

8/27/2009

Começo e fim


Se o vislumbre trouxesse um lampejo
Ao menos uma luz fugaz
Eu poderia tatear o movimento
Encontrar-me nos descaminhos
Aceitar uma direção
Rumar ao encontro
Saber aonde ir.

Mas as pernas custam a obedecer
Os passos são lentos
Os pés estão rachados
Temem o calor dos desertos
A enganosa maciez dos banhados
Os vales pedregosos.

O corpo está exaurido
Clama por um repouso
Estirado na relva
Debaixo de uma árvore
Onde apenas possa ficar.

Ficar sem ter que sair
Já não querendo estar
Somente aguardando
Sem a pressa do começo
Sem a lentidão do fim.

8/10/2009

Acredite


Acredite...
Acima de tudo
Acredite!

Pode ser em qualquer coisa
Mas acredite...

Senão, serás um desajustado
E terás de ser excluído
Internado
Perseguido
Morto.

Por isso, acredite.
Fundamentalmente
Acredite.

Pode ser em um partido político
Em uma ideologia
Quem sabe em uma teoria
Em um paradigma
Talvez em uma religião
Ou em uma magia
Ou em ações benemerentes
Ou na indústria da solidariedade voluntária.

Seja no que for
Acredite!
Ou tua vida se despedaçará
Certamente acabarás mal.

Assim, não deixe de acreditar
Nas instituições
Nos amigos
Na família
Na realização profissional
No pensamento positivo
Na experiência
Nos remédios
Na medicina e nos médicos
Na publicidade
Na informação
Na história
Nas promessas
E nas promoções.

Acredite, o importante é acreditar.

Nos homens e mulheres dedicados à causa pública
Nas boas intenções
Na palavra
Nos discursos
Na individualidade
No coletivo
Na justiça
Na ciência
Na tecnologia
No trabalho
Nos cachorros
Na alegria
Na sociedade.

Creia, jamais deixe de acreditar
Nas convenções
Nos horários
Nas estações do ano
No que o teu olhar vislumbra
Na realidade
No virtual
Na sensibilidade
Na necessidade de sofrer para aprender.

Creia, o certo é acreditar
Na competição
Nos negócios
No progresso
No consumo
Na paz
Nas boas intenções dos guerreiros
Na oração
No guru
No ídolo

Enfim... Não importa em quem
Em quê
Mas acredite...
Mesmo que seja no amor.

8/06/2009

Falando sério


Tenho vícios
Nada omissos

Adoro abusos
Sempre escusos

Faço por merecer
Todo o tipo de prazer

Cultivo manias
E maltrato agonias

Exercito emoções
E reprimo frustrações

Faço graça
O medo passa

Sou atencioso
Com o pernicioso

Distribuo simpatia
E desconsidero a hipocrisia

Trabalho com competência
Para evitar a indigência

Esqueço o pesadelo
Acordando com desvelo

Gerencio a sinceridade
Fazendo de conta que combato a falsidade

Creio no amanhã
E evito o divã

Quase sempre ando enfarado
Mas atuo disfarçado

Sacudo o presente
Pois sou renitente

Faço o jogo da vida aos trancos
Por não ter habilidade torpe
Espero que ninguém me corte

Apenas quero chegar vivo
Até a morte.