8/27/2009

Começo e fim


Se o vislumbre trouxesse um lampejo
Ao menos uma luz fugaz
Eu poderia tatear o movimento
Encontrar-me nos descaminhos
Aceitar uma direção
Rumar ao encontro
Saber aonde ir.

Mas as pernas custam a obedecer
Os passos são lentos
Os pés estão rachados
Temem o calor dos desertos
A enganosa maciez dos banhados
Os vales pedregosos.

O corpo está exaurido
Clama por um repouso
Estirado na relva
Debaixo de uma árvore
Onde apenas possa ficar.

Ficar sem ter que sair
Já não querendo estar
Somente aguardando
Sem a pressa do começo
Sem a lentidão do fim.

8/10/2009

Acredite


Acredite...
Acima de tudo
Acredite!

Pode ser em qualquer coisa
Mas acredite...

Senão, serás um desajustado
E terás de ser excluído
Internado
Perseguido
Morto.

Por isso, acredite.
Fundamentalmente
Acredite.

Pode ser em um partido político
Em uma ideologia
Quem sabe em uma teoria
Em um paradigma
Talvez em uma religião
Ou em uma magia
Ou em ações benemerentes
Ou na indústria da solidariedade voluntária.

Seja no que for
Acredite!
Ou tua vida se despedaçará
Certamente acabarás mal.

Assim, não deixe de acreditar
Nas instituições
Nos amigos
Na família
Na realização profissional
No pensamento positivo
Na experiência
Nos remédios
Na medicina e nos médicos
Na publicidade
Na informação
Na história
Nas promessas
E nas promoções.

Acredite, o importante é acreditar.

Nos homens e mulheres dedicados à causa pública
Nas boas intenções
Na palavra
Nos discursos
Na individualidade
No coletivo
Na justiça
Na ciência
Na tecnologia
No trabalho
Nos cachorros
Na alegria
Na sociedade.

Creia, jamais deixe de acreditar
Nas convenções
Nos horários
Nas estações do ano
No que o teu olhar vislumbra
Na realidade
No virtual
Na sensibilidade
Na necessidade de sofrer para aprender.

Creia, o certo é acreditar
Na competição
Nos negócios
No progresso
No consumo
Na paz
Nas boas intenções dos guerreiros
Na oração
No guru
No ídolo

Enfim... Não importa em quem
Em quê
Mas acredite...
Mesmo que seja no amor.

8/06/2009

Falando sério


Tenho vícios
Nada omissos

Adoro abusos
Sempre escusos

Faço por merecer
Todo o tipo de prazer

Cultivo manias
E maltrato agonias

Exercito emoções
E reprimo frustrações

Faço graça
O medo passa

Sou atencioso
Com o pernicioso

Distribuo simpatia
E desconsidero a hipocrisia

Trabalho com competência
Para evitar a indigência

Esqueço o pesadelo
Acordando com desvelo

Gerencio a sinceridade
Fazendo de conta que combato a falsidade

Creio no amanhã
E evito o divã

Quase sempre ando enfarado
Mas atuo disfarçado

Sacudo o presente
Pois sou renitente

Faço o jogo da vida aos trancos
Por não ter habilidade torpe
Espero que ninguém me corte

Apenas quero chegar vivo
Até a morte.