9/19/2010

Somas



Sou a soma de todas as desistências
O fruto de todas as inseguranças
O sumo de todos os receios
O resultado de uma equação provável

Sou a soma de todos os desejos não realizados
O eco inaudível das frustrações
A visão embaçada das ansiedades reprimidas
O andar trôpego de caminhos desencontrados

Sou a soma de todos os pesadelos acordados
O despertar abrupto dos sonhos angustiados
O cochilo da esperteza
A alucinação da esperança

Sou a soma de todas as rotinas
Passageiro dos condicionamentos
Espectador e ator do ser e do ter
Cidadão das necessidades premeditadas

Sou a soma de todas as histórias previsíveis
Guerreiro da sobrevivência
Um conformado consciente
Um solitário afogado na multidão

Sou a soma de todas as espécies
Um caleidoscópio de gêneros
Uma etnia sem pátria
Uma raça descolorida

Sou a soma de todas as mentiras verdadeiras
Algoz da palavra
Vítima do discurso
Agente da incoerência

Sou a soma de todas as leis
Cúmplice das ideologias
Juiz de valores
Réu das incompreensões


Sou a soma de todas as amizades utópicas
Melhor inimigo de mim mesmo
Amante das ilusões
Uma paixão claustrofóbica

Sou a soma de todas as individualidades
Um vício de vida
Uma razão egoísta
Um humano atolado
Na soma da humanidade

6/20/2010

Até o fim


Havia um longo caminho a percorrer
Até parecia a vida
Tantas trilhas diferentes
Terrenos planos
Tortuosos
Íngremes
Macios
Acidentados

Era preciso seguir
Sempre em frente
Sem olhar para trás
Esquecendo o passado
Envolvendo o presente
Na expectativa do futuro

Não existia alternativa
A não ser olhar o horizonte
Enfrentar os dias e as noites
O frio e o calor
O desassossego
A saciedade

Nenhum desvio
Nem à direita
Tampouco à esquerda
Sem outra esperança
Que não ir adiante

Até alcançar o começo
Do fim

4/14/2010

Perdas


Vazios vão surgindo à nossa volta. Espaços antes preenchidos pouco a pouco se tornam vagos. E não são mais ocupados. São nacos da nossa existência que desaparecem. Para sempre. Ao poucos, o real passa para o virtual. O toque apenas resiste na imaginação. E mesmo as lembranças, a princípio torrenciais, tornam-se tênues filetes no abismo da memória.

Repassamos passos passados em uma tentativa de remontar o presente com o que restou do passado, talvez ambicionando um futuro que jamais acontecerá. Rememoramos sentimentos e afetos, sorrisos e até raivas na clausura dos pensamentos. Mas o olhar não alcança mais os contornos, a forma e a visão inexoravelmente se dissipam no limiar implacável do tempo.

As perdas se acumulam e nos deixam perdidos, perplexos, fragilizados, temerosos de sermos nós a próxima perda sentida. Alguém há que sentir! Para onde estão indo todos? Para onde está indo tudo que aparentemente fazia parte da minha eternidade cotidiana, da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude, da minha maturidade? A inocência, os brinquedos, as primeiras paixões, os grandes amores, as incomensuráveis decepções das relações muito discutidas e nada resolvidas, os sonhos, os ideais, as crenças, as ambições materiais, tudo vai se esvaindo por entre as horas, os dias, pouco a pouco, sem parar.

O meu universo de pessoas, como as estrelas, aos poucos vai se apagando. A minha vida cada vez mais é menos que poeira cósmica de uma galáxia em extinção. E eu cada vez mais solitário. Será esse o meu medo? Ficarei sozinho de mim mesmo? Esquecerei de mim ou apenas esquecerão de mim? Até quando vou brilhar?

Agora ainda posso sentir dor pelas ausências que vão se acumulando, pelos outros que vão deixando de ser. E quando alguém sentir dor por mim? E quando eu voltar às origens, na plenitude da solidão, sentirei dor por mim?

Questionamentos de uma obviedade primacial que não se sustentam quando confrontados com a argumentação elementar que fundamenta o que chamamos de existência. Talvez por isso, ou por fé na fé, a cada momento que passa, a cada instante que avança para o inexorável desenlace, sinto-me mais vivo, mais forte, mais potente, mais feliz.

Porque a cada átimo de tempo que me é dado viver, aprendo um pouco mais a me amar e amar o que faz parte da minha existência. E também o que não faz parte. Para o bem e para o mal. Verso e reverso. Amigos e inimigos. Tristezas e alegrias. Perdas e ganhos.

Aprendi a sentir as perdas. Posso até não me conformar com elas, lutar contra elas. Posso ficar dolorido, sofrer. Porém ao fim e ao cabo preciso respeitá-las.

E mais do que isso: negar o negativo, pois o contrário da morte não é a vida. É o amor.

Valho mais, para quem se foi, para quem está indo, para quem ainda é, para tudo que já fez ou faz parte de minha vida, tentando encharcar mais e mais os meus sentidos de amor. Porque, na verdade, só isso é um valor que vale. O resto não existe, embora seja o que mais se perceba.

2/12/2010

Linha do horizonte


Caminhando rente ao parapeito das minhas fragilidades
Com os bolsos cheios de segredos
Tento não olhar para o vácuo
Por receio de ver o eco da minha própria imagem

Apesar de acossado pelo irresistível desejo de voltar
Talvez seguir outra rota
Quem sabe um novo começo
Não posso recuar e tampouco olhar para trás

Só me resta tentar não perder o equilíbrio
Não pisar em falso
Não vacilar no estreito limite da vida que me resta
Para não desabar no abismo do meu íntimo

Afinal, o desconhecido sempre provoca arrepios
Posso deparar-me com memórias amortecidas
Verdades emboloradas
Razões inexplicáveis

Assim, tento manter-me ereto
Sem pender para um lado ou outro
Seguindo em frente
Passo a passo
Até ultrapassar a linha do horizonte

1/24/2010

Ante passados


Recortei as imagens que povoavam o meu supercílio
Arrumei um lugar para as memórias esquecidas embaixo da língua
Suprimi de vez os arquivos de áudio dos tímpanos profanos
Suturei as feridas dos sofrimentos inexplicáveis
E tratei de repousar sob a lama que sempre me circundou

Já não havia tempo para apressar a chegada
Pois as horas caminhavam solertes a esmo
E os segundos se arrastavam perdidos em meio à névoa imprevista
Causando sensações impróprias a quem desejava apenas descansar

Mesmo que fosse voando sob montanhas enegrecidas
Flanando sob cristais derretidos
Olhando do alto a terrível alucinação humana
Castigada desde sempre na plenitude da auto-imolação...

Distante do não-lugar
Muito próximo de raízes quase esquecidas
Buscando uma identidade já perdida
Os pesadelos perturbam a memória que teima em ser recuperada

O frio da alma deixa a neve roçar a imaginação
Há um horizonte à frente também vislumbrado por quem já partiu
A terra é a mesma por onde os consangüíneos caminharam

Uma boa sensação alfineta as emoções
Como aquela de ter descoberto
Algo insondável
Mas perceptível
Como uma filigrana
Como uma centelha
Como um tênue ruído de um pequeno riacho
Que diz ser preciso seguir
Continuar
Sempre