4/14/2010

Perdas


Vazios vão surgindo à nossa volta. Espaços antes preenchidos pouco a pouco se tornam vagos. E não são mais ocupados. São nacos da nossa existência que desaparecem. Para sempre. Ao poucos, o real passa para o virtual. O toque apenas resiste na imaginação. E mesmo as lembranças, a princípio torrenciais, tornam-se tênues filetes no abismo da memória.

Repassamos passos passados em uma tentativa de remontar o presente com o que restou do passado, talvez ambicionando um futuro que jamais acontecerá. Rememoramos sentimentos e afetos, sorrisos e até raivas na clausura dos pensamentos. Mas o olhar não alcança mais os contornos, a forma e a visão inexoravelmente se dissipam no limiar implacável do tempo.

As perdas se acumulam e nos deixam perdidos, perplexos, fragilizados, temerosos de sermos nós a próxima perda sentida. Alguém há que sentir! Para onde estão indo todos? Para onde está indo tudo que aparentemente fazia parte da minha eternidade cotidiana, da minha infância, da minha adolescência, da minha juventude, da minha maturidade? A inocência, os brinquedos, as primeiras paixões, os grandes amores, as incomensuráveis decepções das relações muito discutidas e nada resolvidas, os sonhos, os ideais, as crenças, as ambições materiais, tudo vai se esvaindo por entre as horas, os dias, pouco a pouco, sem parar.

O meu universo de pessoas, como as estrelas, aos poucos vai se apagando. A minha vida cada vez mais é menos que poeira cósmica de uma galáxia em extinção. E eu cada vez mais solitário. Será esse o meu medo? Ficarei sozinho de mim mesmo? Esquecerei de mim ou apenas esquecerão de mim? Até quando vou brilhar?

Agora ainda posso sentir dor pelas ausências que vão se acumulando, pelos outros que vão deixando de ser. E quando alguém sentir dor por mim? E quando eu voltar às origens, na plenitude da solidão, sentirei dor por mim?

Questionamentos de uma obviedade primacial que não se sustentam quando confrontados com a argumentação elementar que fundamenta o que chamamos de existência. Talvez por isso, ou por fé na fé, a cada momento que passa, a cada instante que avança para o inexorável desenlace, sinto-me mais vivo, mais forte, mais potente, mais feliz.

Porque a cada átimo de tempo que me é dado viver, aprendo um pouco mais a me amar e amar o que faz parte da minha existência. E também o que não faz parte. Para o bem e para o mal. Verso e reverso. Amigos e inimigos. Tristezas e alegrias. Perdas e ganhos.

Aprendi a sentir as perdas. Posso até não me conformar com elas, lutar contra elas. Posso ficar dolorido, sofrer. Porém ao fim e ao cabo preciso respeitá-las.

E mais do que isso: negar o negativo, pois o contrário da morte não é a vida. É o amor.

Valho mais, para quem se foi, para quem está indo, para quem ainda é, para tudo que já fez ou faz parte de minha vida, tentando encharcar mais e mais os meus sentidos de amor. Porque, na verdade, só isso é um valor que vale. O resto não existe, embora seja o que mais se perceba.