12/10/2011

Revoada

(Texto selecionado para integrar a Antologia a ser publicada pela Editora da Universidade Federal Fluminense, em comemoração ao Momento Itália-Brasil)



Acomodei na bagagem as imagens da infância remota,
Quando escapava solerte da vigilância materna,
Para deliciar-me até não mais poder
Com a intensidade infinita do amor plácido,
Sempre à minha espera na casa do nonno e da nonna.

Reservei um considerável espaço para as memórias recorrentes
Dos sabores, dos odores, dos sons em dialeto,
E até de um orgulho inculcado desde muito cedo,
Por ser um “legítimo”, na formação, nos hábitos, na própria visão de mundo.
Carregando essas vivências intensas e densas,
Ansiosas ao ponto de turvar a visão e acelerar o coração,
Em um final de outono pisei no solo onde tudo principiou.

E mergulhei no bucólico cenário dos nascimentos, dos conhecimentos e das uniões
Dos homens e mulheres que amalgamaram a minha família paterna,
Que se fragmentou inexoravelmente quando alguns foram embora para nunca mais retornar.

Perscrutei a planície até a visão alcançar o horizonte
Emoldurado por contornos montanhosos,
Berço de uma neve alheia aos humores das estações,
E baixei o olhar, defrontando-me com uma terra castigada pelas intempéries.

Frio.
Fome.
Falsas promessas.
Ânsia inadiável de uma sobrevivência mais digna.

Quão poderosos e inequívocos teriam sido os motivos
Capazes de afastar Domenico e sua mulher, Anna, meus bisavós,
Com dois filhos, um com três e outro com um ano de idade,
Da intimidade de sua rotina,
Empurrando-os para um destino sem volta?

Vítimas perfeitas para a persuasão oficial,
Estômagos ludibriados pela cantilena institucional,
Mentes iludidas pela esperança da realização,
Perdidas em meio a outras tantas e tantas,
Contabilizadas por um talvez disfarçado programa de expulsão-pátria pacífica.

Mas tudo isso passou.
As dores das feridas físicas e da alma já foram amainadas,
Solapadas pela própria história.
A vida seguiu: filhos, netos, bisnetos e assim até quando Deus quiser;
Todos enlaçados por um sobrenome, por uma origem comum, única.
Sangue.

Por isso, eu, Domenico, e eu, Anna, nesse dia qualquer de um final de outono,
Estamos felizes.

Demorou.
Passaram-se 131 anos.
E aqui estamos nós novamente!
Os nossos espíritos mais uma vez
Fluem ao embalo do ar que lhes deu a vida.

E aqui estamos novamente,
Assistindo extasiados a uma inesperada revoada de pombos
Por sobre o telhado da antiga capela.
Onde há muito tempo nossas mãos, trêmulas de alegria,
Entrelaçaram-se para sempre.

E aqui estamos novamente,
Reavivando o cotidiano dos nossos dias mais jovens,
Sentindo os cheiros de uma terra que nunca deixou de ser nossa,
Como tão nossa se tornou a nova terra,
Fertilizada por nossos suores,
Enraizada por nossa tenacidade,
Vicejada por nossas sementes.

6/24/2011

A Colina Azul



Pouco antes do amanhecer, caminhando sonolento pelo úmido e único caminho até o topo da Colina Azul, onde pretendia novamente ser um expectador privilegiado do romper do sol por detrás da imensidão do mar, deparei-me, surpreso, com um homem de meia-idade descendo a trilha.

A escuridão, mesmo em seus estertores, persistia, resistindo, fazendo ouvidos moucos às impertinentes cantorias dos pássaros mais impacientes pelo porvir. Ao mesmo tempo, os ruídos noturnos já se recolhiam, seres diminutos e outros mais avantajados agiam rápido, escondendo-se, procurando abrigo, entocando-se para livrar-se de vez dos riscos e das temeridades da claridade.

Sem dúvida, deparar-se com um ser humano só poderia ser classificado como algo insólito, ainda mais considerando o horário, a temperatura, a rotineira escassez de gente naquelas paragens quase nunca visitadas, muito menos por quem estava habituado a gastar suas vidas em outros destinos.

Quando mais ou menos dois metros separavam nossos corpos, eu e o estranho estancamos os movimentos. Mantive a postura da aparente tranqüilidade, apesar de fartas doses de substâncias excitantes, misturadas com algumas atavicamente receosas, despertadas por um cérebro sempre alerta, terem invadido minha corrente sanguínea.

Sem titubear, exclamei, pretendendo uma entonação simpática, segura:

-Bom dia!

A resposta do sujeito refletiu a sua aparência, cujos contornos e nuances se tornaram mais nítidos à medida em que nos aproximamos.

Um tipo esguio, de altura mediana, embora aparentasse ser mais baixo pela compleição alquebrada, tronco envergado, enfim, alguém parecendo estar prestes a afundar e desaparecer à sua frente.

Um som quase inaudível chegou aos meus ouvidos como um lamento, jamais poderia ser entendido como uma saudação. Era próprio ruído da tristeza verbalizado como saudação

Apesar do impacto, persisti com o ar de naturalidade e me aproximei mais ainda. O homem se vestia com certo aprumo, o corte do cabelo e a barba bem feita revelavam asseio. Nada indicava ser um andarilho perdido em devaneios psicóticos.

Animado, emendei outra frase, tentando descobrir mais sobre o estranho.

-Mas de onde o amigo está vindo? Por acaso se perdeu?

O individuo fez um esforço para se aprumar e, de soslaio, respondeu:

-Não, não estou perdido. Venho do alto da colina. Fui realizar um sepultamento.

Fiquei atônito. As aparências enganam, conjecturei intimamente, o sujeito poderia estar em surto. Afinal, há anos, desde quando resolvi largar a civilização, freqüento a Colina Azul (assim a batizei), para mim um símbolo radiante da existência. Não havia nenhum cemitério por ali, disso tinha absoluta convicção.

Minha pronta reação foi examinar meu interlocutor nos mínimos detalhes. Até por precaução. Por isso constatei, estirado em seu ombro esquerdo, um saco de aniagem pardo, vazio.

-Desculpe amigo – redargúi -, mas não existe cemitério na Colina Azul.

-Sim, eu sei – concordou o estranho. Até poucas horas atrás, realmente não havia. Porém, aquelas terras, aonde o vento vindo do mar resfolega, onde plantas revoltas insistem em brotar, agora estão revolvidas e servem de sepulcro.

O homem seguiu falando, já olhando diretamente no meu rosto aparvalhado.

Veja – disse enquanto balançava com a mão direita o saco, arrancado abruptamente de seu repouso. Estava aqui o que enterrei lá. Posso garantir: foi difícil e pesaroso, fui obrigado a reunir forças até então desconhecidas, tomar-me de uma coragem nunca antes manifestada. Mas consegui! Era preciso fazer e está feito!

Nesse instante, um tênue raio de sol conseguiu enveredar-se por entre as árvores mais altas, como sinalizando a vitória das luzes, com o astro incandescente assumindo a sua soberania, vencendo a linha do horizonte.

Houve um perceptível farfalhar mais acentuado à nossa volta. A vegetação finalmente acordava com vigor, acompanhando a algazarra de sons cada vez mais acentuada. A sinfônica do dia afinava os instrumentos.

-Raios – pensei –, lá se foi o meu nascer do sol.

Um breve silêncio se interpôs entre nós. Ele notou a minha hesitação e voltou a falar:

- Fiz uma cova relativamente rasa – disse pesaroso. Não encontrei razão para aprofundar. Cavei três ou quatro centímetros abaixo da grama rala, no máximo. Montei um leito de folhas verdes, que apanhara durante a subida ao que o amigo chama de Colina Azul. Aliás, escolhi o lugar depois de muito procurar.

Quanto mais falava, mais o estranho alterava sua fisionomia. Seu abatimento se esvaia, ficou mais ereto, seu olhar já faiscava uma disposição de quem deseja superar o trauma.

-Sim, meu caro amigo, está feito. Enterrei na Colina minhas esperanças, meus melhores sonhos e meus desejos mais desejados.

Não consegui conter a indignação. Esbravejei com o estranho. Alto e bom som, afirmei que a Colina Azul era um santuário da vida, do nascimento da luz, da infinitude do espaço, da imensidão das águas, da força dos ventos esculpindo as pedras, dos raios e das tempestades. A Colina Azul jamais poderia servir como cemitério para as questiúnculas humanas.

Eu próprio - continuei exasperado - todos os dias assisto o resplandecer da vida do alto da Colina Azul. Há quase 20 anos sigo essa rotina. Escolhi o lugar depois de buscar nos quatro cantos do mundo uma paragem isenta de mazelas.Pura.

O homem ouviu o meu desabafo em um silêncio compungido. Quando terminei, já fazendo menção de seguir adiante, proferiu mais uma frase:

-Minhas esperanças, meus sonhos e meus desejos estão mortos. Definitivamente enterrados. Não vão perturbar ninguém. O espetáculo da natureza se mantém garantido. O amigo pode usufruir da paisagem como sempre. A vida segue.

Não sei se me distrai por um átimo. Mas o estranho desapareceu como por encanto. Tão subitamente senti-me só que me agachei, tentando identificar, no terreno fofo, as pegadas do meu - até a poucos instantes - interlocutor. Foi em vão. As folhas continuavam úmidas, mas intactas, sem sinal de pisoteio.

Apurei o olhar até onde o caminho podia ser identificado como tal. Nada. Fiz um esforço para ouvir algum barulho diferente, um galho quebrado, uma pisada mais forte. Também sem sucesso.

Senti-me abatido. Encostei-me em uma árvore e fiquei ali, por um tempo que não saberia precisar, com as pálpebras cerradas, envolvido pelo som do silêncio da natureza.

O trinar agudo de um pássaro assanhado me fez sair da letargia. Perscrutar em volta. Meus olhos ficaram embaciados pelo verde intenso. Quase chorei.

Uma dúvida terrível me assaltou. Já não sabia se estava subindo ou descendo a Colina Azul. Já não tinha certeza de minhas intenções: se pretendia contemplar o nascer ou o por do sol.

E não tinha a menor idéia de como surgira um saco de aniagem de coloração parda, estirado indolentemente ao meu lado.

Vazio.

2/18/2011

Identidades



Quando tudo começou fui chamado de recém-nascido, bebê, filho. Pouco tempo depois, passei a ser reconhecido como sobrinho, primo, afilhado, neto, bisneto, irmão. Lá pelos seis anos, quando freqüentei o jardim de infância, tornei-me amiguinho, assumindo definitivamente o status de criança. Não demorou muito para ser aluno, colega.

O tempo passou depressa, logo virei adolescente, jovem. Algumas denominações desapareceram, como criança; outras se tornaram perenes, como filho, irmão, enquanto outras se agregaram, como namorado.

Lá pelos 17, 18 anos incorporei outros rótulos, como fumante, viciado. Logo tornei-me universitário. Daí a virar estagiário foi um passo, quase tão rápido quanto me transformar em assalariado, trabalhador, profissional. Já era então um típico adulto, um homem.

Nesse meio tempo, fiz questão de ser conhecido como sedutor, como amante. Mas não demorou muito para eu me transformar em companheiro, em marido. Contrariando a regra, o que me custa até hoje olhares desconfiados, neguei-me a ser chamado de pai. Mas não escapei de ser tio, dindo, compadre. Sem falar na pecha de vizinho.

Definitivamente, passei a ser encarado como um cidadão, mas, ao fim e ao cabo, nada além de uma pessoa comum. Com todas as obrigações inerentes a uma pessoa física, a um contribuinte.

Bem ou mal, consegui, ser alguém na vida.

É fato: nunca deixaram de insistir para que eu fosse doador, solidário, torcedor, , fiel, telespectador, expectador, leitor e, nos últimos anos, internauta.

Com o passar dos anos, com uma certa regularidade, mesmo a contragosto, assumi a condição de paciente.

Vivi um período como inquilino, mas consegui o status de proprietário, deixando inclusive a condição de condômino.

Continuam atribuindo máxima importância, e até reverência, quando me vêem como consumidor, cliente, colaborador, eleitor, partidário, patriota. Afinal, faço parte do público-alvo.

(Nesse contexto, quase não uso mais o meu nome de batismo. Sou uma espécie de senha ambulante, reconhecido, admitido, autorizado a partir da conferência de uma sequência de números, algumas vezes intercalados com algumas palavras. No fundo, o nome não interessa muito no dia a dia. O que vale mesmo é o grande número, aquele do cadastro de pessoas físicas. Em segundo plano, vem o número do documento de identidade.)

Seja como for, tenho evitado, com zelo, de ser chamado de obeso, prisioneiro, criminoso, ladrão, mau-caráter, desonesto, doente, infeliz.

A inexorável trajetória existencial-social me remete à situação de segurado, aposentado. E sepultou as pretensões de me tornar rico.

Mas, de qualquer forma, é certo: não vou escapar de ser uma mera lembrança, talvez por uma ou duas décadas, quando partir para a inevitável situação de morto. Quem sabe a única identificação verdadeiramente inquestionável.