
Quando tudo começou fui chamado de recém-nascido, bebê, filho. Pouco tempo depois, passei a ser reconhecido como sobrinho, primo, afilhado, neto, bisneto, irmão. Lá pelos seis anos, quando freqüentei o jardim de infância, tornei-me amiguinho, assumindo definitivamente o status de criança. Não demorou muito para ser aluno, colega.
O tempo passou depressa, logo virei adolescente, jovem. Algumas denominações desapareceram, como criança; outras se tornaram perenes, como filho, irmão, enquanto outras se agregaram, como namorado.
Lá pelos 17, 18 anos incorporei outros rótulos, como fumante, viciado. Logo tornei-me universitário. Daí a virar estagiário foi um passo, quase tão rápido quanto me transformar em assalariado, trabalhador, profissional. Já era então um típico adulto, um homem.
Nesse meio tempo, fiz questão de ser conhecido como sedutor, como amante. Mas não demorou muito para eu me transformar em companheiro, em marido. Contrariando a regra, o que me custa até hoje olhares desconfiados, neguei-me a ser chamado de pai. Mas não escapei de ser tio, dindo, compadre. Sem falar na pecha de vizinho.
Definitivamente, passei a ser encarado como um cidadão, mas, ao fim e ao cabo, nada além de uma pessoa comum. Com todas as obrigações inerentes a uma pessoa física, a um contribuinte.
Bem ou mal, consegui, ser alguém na vida.
É fato: nunca deixaram de insistir para que eu fosse doador, solidário, torcedor, fã, fiel, telespectador, expectador, leitor e, nos últimos anos, internauta.
Com o passar dos anos, com uma certa regularidade, mesmo a contragosto, assumi a condição de paciente.
Vivi um período como inquilino, mas consegui o status de proprietário, deixando inclusive a condição de condômino.
Continuam atribuindo máxima importância, e até reverência, quando me vêem como consumidor, cliente, colaborador, eleitor, partidário, patriota. Afinal, faço parte do público-alvo.
(Nesse contexto, quase não uso mais o meu nome de batismo. Sou uma espécie de senha ambulante, reconhecido, admitido, autorizado a partir da conferência de uma sequência de números, algumas vezes intercalados com algumas palavras. No fundo, o nome não interessa muito no dia a dia. O que vale mesmo é o grande número, aquele do cadastro de pessoas físicas. Em segundo plano, vem o número do documento de identidade.)
Seja como for, tenho evitado, com zelo, de ser chamado de obeso, prisioneiro, criminoso, ladrão, mau-caráter, desonesto, doente, infeliz.
A inexorável trajetória existencial-social me remete à situação de segurado, aposentado. E sepultou as pretensões de me tornar rico.
Mas, de qualquer forma, é certo: não vou escapar de ser uma mera lembrança, talvez por uma ou duas décadas, quando partir para a inevitável situação de morto. Quem sabe a única identificação verdadeiramente inquestionável.