Pouco antes do amanhecer, caminhando sonolento pelo úmido e único caminho até o topo da Colina Azul, onde pretendia novamente ser um expectador privilegiado do romper do sol por detrás da imensidão do mar, deparei-me, surpreso, com um homem de meia-idade descendo a trilha.
A escuridão, mesmo em seus estertores, persistia, resistindo, fazendo ouvidos moucos às impertinentes cantorias dos pássaros mais impacientes pelo porvir. Ao mesmo tempo, os ruídos noturnos já se recolhiam, seres diminutos e outros mais avantajados agiam rápido, escondendo-se, procurando abrigo, entocando-se para livrar-se de vez dos riscos e das temeridades da claridade.
Sem dúvida, deparar-se com um ser humano só poderia ser classificado como algo insólito, ainda mais considerando o horário, a temperatura, a rotineira escassez de gente naquelas paragens quase nunca visitadas, muito menos por quem estava habituado a gastar suas vidas em outros destinos.
Quando mais ou menos dois metros separavam nossos corpos, eu e o estranho estancamos os movimentos. Mantive a postura da aparente tranqüilidade, apesar de fartas doses de substâncias excitantes, misturadas com algumas atavicamente receosas, despertadas por um cérebro sempre alerta, terem invadido minha corrente sanguínea.
Sem titubear, exclamei, pretendendo uma entonação simpática, segura:
-Bom dia!
A resposta do sujeito refletiu a sua aparência, cujos contornos e nuances se tornaram mais nítidos à medida em que nos aproximamos.
Um tipo esguio, de altura mediana, embora aparentasse ser mais baixo pela compleição alquebrada, tronco envergado, enfim, alguém parecendo estar prestes a afundar e desaparecer à sua frente.
Um som quase inaudível chegou aos meus ouvidos como um lamento, jamais poderia ser entendido como uma saudação. Era próprio ruído da tristeza verbalizado como saudação
Apesar do impacto, persisti com o ar de naturalidade e me aproximei mais ainda. O homem se vestia com certo aprumo, o corte do cabelo e a barba bem feita revelavam asseio. Nada indicava ser um andarilho perdido em devaneios psicóticos.
Animado, emendei outra frase, tentando descobrir mais sobre o estranho.
-Mas de onde o amigo está vindo? Por acaso se perdeu?
O individuo fez um esforço para se aprumar e, de soslaio, respondeu:
-Não, não estou perdido. Venho do alto da colina. Fui realizar um sepultamento.
Fiquei atônito. As aparências enganam, conjecturei intimamente, o sujeito poderia estar em surto. Afinal, há anos, desde quando resolvi largar a civilização, freqüento a Colina Azul (assim a batizei), para mim um símbolo radiante da existência. Não havia nenhum cemitério por ali, disso tinha absoluta convicção.
Minha pronta reação foi examinar meu interlocutor nos mínimos detalhes. Até por precaução. Por isso constatei, estirado em seu ombro esquerdo, um saco de aniagem pardo, vazio.
-Desculpe amigo – redargúi -, mas não existe cemitério na Colina Azul.
-Sim, eu sei – concordou o estranho. Até poucas horas atrás, realmente não havia. Porém, aquelas terras, aonde o vento vindo do mar resfolega, onde plantas revoltas insistem em brotar, agora estão revolvidas e servem de sepulcro.
O homem seguiu falando, já olhando diretamente no meu rosto aparvalhado.
Veja – disse enquanto balançava com a mão direita o saco, arrancado abruptamente de seu repouso. Estava aqui o que enterrei lá. Posso garantir: foi difícil e pesaroso, fui obrigado a reunir forças até então desconhecidas, tomar-me de uma coragem nunca antes manifestada. Mas consegui! Era preciso fazer e está feito!
Nesse instante, um tênue raio de sol conseguiu enveredar-se por entre as árvores mais altas, como sinalizando a vitória das luzes, com o astro incandescente assumindo a sua soberania, vencendo a linha do horizonte.
Houve um perceptível farfalhar mais acentuado à nossa volta. A vegetação finalmente acordava com vigor, acompanhando a algazarra de sons cada vez mais acentuada. A sinfônica do dia afinava os instrumentos.
-Raios – pensei –, lá se foi o meu nascer do sol.
Um breve silêncio se interpôs entre nós. Ele notou a minha hesitação e voltou a falar:
- Fiz uma cova relativamente rasa – disse pesaroso. Não encontrei razão para aprofundar. Cavei três ou quatro centímetros abaixo da grama rala, no máximo. Montei um leito de folhas verdes, que apanhara durante a subida ao que o amigo chama de Colina Azul. Aliás, escolhi o lugar depois de muito procurar.
Quanto mais falava, mais o estranho alterava sua fisionomia. Seu abatimento se esvaia, ficou mais ereto, seu olhar já faiscava uma disposição de quem deseja superar o trauma.
-Sim, meu caro amigo, está feito. Enterrei na Colina minhas esperanças, meus melhores sonhos e meus desejos mais desejados.
Não consegui conter a indignação. Esbravejei com o estranho. Alto e bom som, afirmei que a Colina Azul era um santuário da vida, do nascimento da luz, da infinitude do espaço, da imensidão das águas, da força dos ventos esculpindo as pedras, dos raios e das tempestades. A Colina Azul jamais poderia servir como cemitério para as questiúnculas humanas.
Eu próprio - continuei exasperado - todos os dias assisto o resplandecer da vida do alto da Colina Azul. Há quase 20 anos sigo essa rotina. Escolhi o lugar depois de buscar nos quatro cantos do mundo uma paragem isenta de mazelas.Pura.
O homem ouviu o meu desabafo em um silêncio compungido. Quando terminei, já fazendo menção de seguir adiante, proferiu mais uma frase:
-Minhas esperanças, meus sonhos e meus desejos estão mortos. Definitivamente enterrados. Não vão perturbar ninguém. O espetáculo da natureza se mantém garantido. O amigo pode usufruir da paisagem como sempre. A vida segue.
Não sei se me distrai por um átimo. Mas o estranho desapareceu como por encanto. Tão subitamente senti-me só que me agachei, tentando identificar, no terreno fofo, as pegadas do meu - até a poucos instantes - interlocutor. Foi em vão. As folhas continuavam úmidas, mas intactas, sem sinal de pisoteio.
Apurei o olhar até onde o caminho podia ser identificado como tal. Nada. Fiz um esforço para ouvir algum barulho diferente, um galho quebrado, uma pisada mais forte. Também sem sucesso.
Senti-me abatido. Encostei-me em uma árvore e fiquei ali, por um tempo que não saberia precisar, com as pálpebras cerradas, envolvido pelo som do silêncio da natureza.
O trinar agudo de um pássaro assanhado me fez sair da letargia. Perscrutar em volta. Meus olhos ficaram embaciados pelo verde intenso. Quase chorei.
Uma dúvida terrível me assaltou. Já não sabia se estava subindo ou descendo a Colina Azul. Já não tinha certeza de minhas intenções: se pretendia contemplar o nascer ou o por do sol.
E não tinha a menor idéia de como surgira um saco de aniagem de coloração parda, estirado indolentemente ao meu lado.
Vazio.