Um doce! O desejo de saborear um doce tomou conta do centro do seu sistema nervoso, inundou as conexões sinápticas, invadiu os neurônios. Um doce qualquer. Porém, capaz de conter um teor de açúcar incomensurável, eloqüente ao ponto de não apenas salivar a boca, mas de arder ao ser premido entre a língua e o palato. Um doce de um sabor absoluto, tão pleno o suficiente para derramar lágrimas tal a intensidade da excitação provocada nas papilas degustativas.
A mulher, uma renomada geóloga da área petrolífera, a filha, uma disputada especialista em marketing e publicidade, fruto de uma acurada seleção genética, ficaram para trás - entocados em um prédio em ruínas, em uma outrora megalópole atrolhada de concreto e carros - talvez a uma distância tão imensa quanto esse delírio da realidade. Até mesmo porque, caso não fosse um gap virtual, Lumière certamente daria mais importância, no contexto da alucinação, às lágrimas. Encontraria um jeito de bebê-las, sem perder uma gota sequer.
Afinal, por um período já imensurável, estava em busca de água, poderia ser uma água qualquer, em uma empreitada derradeira. Lumière e aqueles que o viram partir sabiam de antemão o resultado: fracasso. Ele apenas resolvera tentar por estar bem incutida em seu perfil empreendedor a premissa de não se sentir um derrotado.
Agora, enquanto se arrastava em um terreno mesclado por pedregulhos e areia, nem de longe teve condições de considerar essa compulsão por um doce como o paradoxo que sempre norteara a sua vida, assim como a de seus iguais. A atávica contradição da evolução humana: a lógica do bom senso e a racionalidade irrefreável dos desejos e das ambições determinadas pela ideologia da superioridade sobre todos os elementos, autorizadora do fazer o que bem entender para saciar necessidades e vontades, reais e/ou engendradas.
E Lumière não era diferente. Quando ainda era um adolescente - antes dos anos de inundação, das chuvas ácidas e do derretimento das geleiras, que antecederam os atuais anos tórridos, de sol inclemente, atmosfera sufocante, e fim das águas minimamente potáveis - chegara a refletir ocasionalmente sobre a existência, sobre o planeta, sobre a evolução da civilização, sobre a competição, sobre questões do tipo ter e o ser. Porém, logo ao entrar no mercado de trabalho, essas elucubrações desapareceram rapidamente, sem deixar vestígios. Ele se integrou, tornando-se um eficiente profissional da área de alimentação, especializado em transgenia vegetal
Não seria no momento em que avançava célere aos estertores da desidratação plena, que Lumière dedicaria seu delírio a assuntos relegados como anacrônicos; não, mesmo em desespero terminal, ele ambicionou o impossível. Talvez quisesse provar sua soberania humana desafiando o inevitável. Ou talvez desejasse tão somente abreviar a morte, tornando-a mais palatável.

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