3/04/2014

Um doce




Um doce! O desejo de saborear um doce tomou conta do centro do seu sistema nervoso, inundou as conexões sinápticas, invadiu os neurônios. Um doce qualquer. Porém, capaz de conter um teor de açúcar incomensurável, eloqüente ao ponto de não apenas salivar a boca, mas de arder ao ser premido entre a língua e o palato. Um doce de um sabor absoluto, tão pleno o suficiente para derramar lágrimas tal a intensidade da excitação provocada nas papilas degustativas.

A mulher, uma renomada geóloga da área petrolífera, a filha, uma disputada especialista em marketing e publicidade, fruto de uma acurada seleção genética, ficaram para trás - entocados em um prédio em ruínas, em uma outrora megalópole atrolhada de concreto e carros - talvez a uma distância tão imensa quanto esse delírio da realidade. Até mesmo porque, caso não fosse um gap virtual, Lumière certamente daria mais importância, no contexto da alucinação, às lágrimas. Encontraria um jeito de bebê-las, sem perder uma gota sequer.

Afinal, por um período já imensurável, estava em busca de água, poderia ser uma água qualquer, em uma empreitada derradeira. Lumière e aqueles que o viram partir sabiam de antemão o resultado: fracasso. Ele apenas resolvera tentar por estar bem incutida em seu perfil empreendedor a premissa de não se sentir um derrotado.

Agora, enquanto se arrastava em um terreno mesclado por pedregulhos e areia, nem de longe teve condições de considerar essa compulsão por um doce como o paradoxo que sempre norteara a sua vida, assim como a de seus iguais. A atávica contradição da evolução humana: a lógica do bom senso e a racionalidade irrefreável dos desejos e das ambições determinadas pela ideologia da superioridade sobre todos os elementos, autorizadora do fazer o que bem entender para saciar necessidades e vontades, reais e/ou engendradas.

E Lumière não era diferente. Quando ainda era um adolescente -  antes dos anos de inundação, das chuvas ácidas e do derretimento das geleiras, que antecederam os atuais anos tórridos, de sol inclemente, atmosfera sufocante, e fim das águas minimamente potáveis - chegara a refletir ocasionalmente sobre a existência, sobre o planeta, sobre a evolução da civilização, sobre a competição, sobre questões do tipo ter e o ser. Porém, logo ao entrar no mercado de trabalho, essas elucubrações desapareceram rapidamente, sem deixar vestígios. Ele se integrou, tornando-se um eficiente profissional da área de alimentação, especializado em transgenia vegetal

Não seria no momento em que avançava célere aos estertores da desidratação plena, que Lumière dedicaria seu delírio a assuntos relegados como anacrônicos; não, mesmo em desespero terminal, ele ambicionou o impossível. Talvez quisesse provar sua soberania humana desafiando o inevitável. Ou talvez desejasse tão somente abreviar a morte, tornando-a mais palatável.


1/01/2014

O circo do eu

Finalmente, as vaidades reprimidas, sufocadas, enrustidas, disfarçadas encontraram um lugar para se esbaldarem e se escancararem. Finalmente, “as pessoas comuns” conseguiram um meio pelo qual conquistaram a sempre ambicionada – e inatingível, na imensa maioria das vezes - visibilidade. De um momento para o outro, passaram do absoluto anonimato a que estavam submetidas  para o reino fascinante  da exposição, do mostrar-se. E isso ao mundo. Graças ao Face, ao Instagran, ao Google +, ao twitter  e outras tantas das denominadas redes sociais.

Todos, dos mais retraídos aos mais insinuantes, obtiveram a senha para ingressar no universo  glamoroso da exibição, ou seja, do existir validado, do existir que realmente interessa, mesmo aos aparentemente humildes, tímidos, ou retraídos. É o circo do eu.

Estamos todos na tela. Do computador, mas, com alguma sorte, podemos ser guindados à telona da TV. E isso é magnífico. Conquistamos a fama. Mesmo de maneira virtual. Se o real se mantém inacessível, todos – ou a imensa maioria – se satisfazem com o seu simulacro de egoísmo. Aparentemente, a fama ultrapassa os até então sedentamente perseguidos 15 minutos.

É claro: esse espetáculo narcísico não se configuraria sem o suporte das imagens, agora ao alcance de todos por meio de máquinas digitais, de aparelhos cuja origem primária era permitir o contato verbal, das filmadoras agregadas a qualquer suporte. Somos a mídia, o espelho de nós mesmos, e estamos radiantes.
Privacidade? Ora, quem a deseja? Por isso é encantador observar a reação mundial das “autoridades” às bisbilhotices da NSA, a agência de inteligência dos EUA. Ah, mas aí é uma questão de segurança nacional. Certo. Pois a segurança pessoal foi às favas. Deliberadamente, cada um pode se mostrar como quiser, por seus dados particulares, por pixels das fotos, por ideias, impressões, opiniões, comentários familiares, e as malditas mensagens altruístas, de auto-ajuda e sentenciadoras de verdades tão absolutas como simplórias. Algumas mobilizações, alguns protestos também ganham algum espaço. No entanto, a pegada mesmo é a imagem, inclusive, ou talvez principalmente, as fotos tiradas de si próprio.

O sujeito está comendo e imediatamente envia a imagem do prato que degusta, para as “redes sociais”, enquanto seu par não tira os olhos da tela do smartphone. Tudo se tornou visível e publicável. Não bastasse isso, somos seguidos por câmeras em todas as partes, que seguem nossos passos e nossos comportamentos. Sorrimos permanente.

Mais: o Google devassou ainda mais toda e qualquer intimidade, disponibilizando, com detalhes, a rua, a calçada, o lugar onde você mora. Ninguém mais pode se esconder. Pior ainda se usar celular ou GPS.
Enfim, o mundo se transformou em um grande programa Big brother, extrapolando a expectativas literárias do genial George Orwell, em seu livro 1984 – errou por alguns anos.

Essa história. Contudo,  não iniciou com o advento das novas tecnologias. Foi acentuada aos píncaros. Já que antes éramos devassados pelos governos. Porém, de forma involuntária, éramos, e continuamos sendo, obrigados a declarar tudo (obrigados inclusive a votar, democraticamente) sob pena de nos tornamo-nos párias da sociedade. Ou seja, a privacidade sempre foi uma falácia.

De seres humanos, pessoas, cidadãos, fomos aos poucos reduzidos a eleitores, consumidores, colaboradores, contribuintes, e chegamos ao ápice: agora somos perfis – virtuais, por excelência. Sem deixar de lado todos os atributos anteriores, principalmente o de consumidores, pois agora nos identificam e nos perseguem loucamente. Basta manifestarmos algum interesse por algum produto que uma enxurrada de publicidade dirigida do referido invade nossa tela.


Bem, termino por aqui. Preciso checar a minha linha do tempo, verificar meu status, as solicitações, curtir, comentar, compartilhar. E postar aquela imagem que tirei de mim mesmo.